quarta-feira, 30 de junho de 2010
TEUS OLHOS ENTRISTECEM.
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem...
Não me ouves, e prossigo.
Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez...
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.
Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.
Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.
Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
segunda-feira, 28 de junho de 2010
SEGREDO...
Não contes os nossos segredos
Muito menos dos nossos encontros
Nem digas que me conheces
E não contes os meus sonhos.
Não contes que me amas
Nem que corro as cortinas
Nem das loucuras que fazemos
Enquanto me sacias.
Não contes do meu passado
Nem do amor que fazemos
Nem que estamos apaixonados
Nem do champanhe que bebemos.
Não contes do nosso amor
Dos nossos momentos de prazer
Pois esse é o nosso segredo
Que só Deus pode saber.
terça-feira, 22 de junho de 2010
DAS VANTAGENS DE SER BOBO.
O bobo, por não se preocupar com ambições, tem tempo
para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar
sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado
por que não faz alguma coisa, reponde: "Estou fazendo. Estou
pensando."
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os
espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo
tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem.
Os espertos estão sempre atentos às espertezas alheias que se
descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples
pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver.
O bobo nunca, parece, ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o
bobo é um Dostoievski.
Há desvantagens, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou
na palavra de um desconhecido para a compra de um ar
refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo,
praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é
fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer.
Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste
era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria
caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a
vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto
estar sempre tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite
com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no
estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobo com burros. Desvantagem: pode
receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das
tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a
célebre frase: "Até tu, Brutus?".
Bobo não reclama. Em compensação como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar
todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria
morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem
passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade, como toda
a criação, é difícil. Por isso, é que os espertos não conseguem
passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em
compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os
bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não
se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não
confundir bobo com burro, com tolo, com fútil): Minas Gerais
por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não
não nascer em Minas!
Bobo é Chagall que põem vaca no espaço, voando por
cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor
que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de execesso
de amor. E só o amor faz o bobo.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
sexta-feira, 18 de junho de 2010
PASSADO, PRESENTE, FUTURO.
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.
Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.
Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.
José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"
NO CORAÇÃO, TALVEZ.
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta.
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.
José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"
ETERNO RETORNO
Ver-te é verter-me de mim
Derramar-te
Sobretudo
...que me dizem
Do que não aconteceu
Do interdito argumentado
Por
contratos e silêncios
Limites... nos quais não caibo
Regras...
que irei burlar
Não sei viver de amores tortos
De contrato
embolorado
E clausulas a serviço
Da repressão que eu mesmo
Sei
impor-me... mais que devo
Meus amores são plurais
Meu coração
vagabundo
O meu limite é o mundo
Que às vezes cabe em teus olhos
-
às vezes não -
E é então que percorro
Meu livro de
impedimentos
E não encontro sentença
Que me proiba lembranças
Brotadas
de meus arquivos
De emoções a granel
Mesmo entendendo que
hoje
Tornei-me meu próprio dono
Menestrel de meus desejos
Domador
de meus lampejos
E impulsivas ações...
Mais de amor do que de
morte
Mais de dor do que de sorte
Quero repartir contigo
O
doce da liberdade
Da liberdade vaidosa
De Pássaro
desengaiolado
Mas que ao final de seus voos
Retorna rápido ao
ninho...
Pra então aconchegar-se
Em nossa falicidade...
Em
nossa felicidade
Desinventamos a tempo
O tempo da
hipocrisia
Já que o reino em que vivemos
Prefere amor ao cinismo
E
respeito... a convenções