domingo, 15 de agosto de 2010

CAIO FERNANDO ABREU


Despojado do que já não há
solto no vazio do que ainda não veio,
minha boca cantará
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir.


Caio Fernando Abreu-
(Caio 3D, O Essencial da Década de 1970)



OSCAR WILDE


...somente o coração de um Rouxinol
pode avermelhar o coração de rosa.

Balada para un loco (canción ilustrada)

sábado, 14 de agosto de 2010

TERRA

em golfadas envolve-me toda,
apagando as marcas individuais,

devora-me até que eu
não respire mais.

(Olga Savary)



sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Ballet Montage - Patrícia - Caetano Veloso

CAIO FERNANDO ABREU

..."E decidiu: vou viajar.
Porque não morri,
porque é verão,
porque é tarde demais
e eu quero ver, rever,
transver, milver tudo que não vi
e ainda mais do que já vi,
como um danado, quero ver feito Pessoa,
que também morreu sem encontrar.
Maldito e solitário, decidiu ousado:
vou viajar.

(excerto)
Caio Fernando Abreu



MANUEL DE BARROS

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá, onde a criança diz:
eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
que é a voz
De fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.



RAINER MARIA RILKE

"Tenho tal medo da palavra dos homens.
Eles exprimem tudo com tanta clareza:
e isto chama-se cão e aquilo casa,
e aqui é o começo e acolá é o fim.

E também me amedronta o seu sentido e o seu jogo com o escárnio,
Eles sabem tudo o que vai ser e já foi;
Não há monte que lhes seja maravilha;
O quintal e a quinta deles vão às fronteiras de Deus.

Hei-de advertir e opor-me: Ficai de largo!
Gosto tanto de ouvir cantar as coisas.
Mal lhes tocais, ficam hirtas e mudas.
Matais-me todas as coisas."

domingo, 8 de agosto de 2010

terça-feira, 3 de agosto de 2010

sábado, 31 de julho de 2010

quinta-feira, 29 de julho de 2010

AMOR COMO EM CASA.

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

(Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio

do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde")



Carlos Walker: Modinha (Cecília Meireles)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

AMOR É SÍNTESE



Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...

Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.

HELP - Por uma vida sem tabaco

HELP - Por uma vida sem tabaco

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Arnaldo Antunes - Envelhecer (com legenda)

CLARICE.

“Vou te fazer uma confissão: estou um pouco assustada. É que não
sei onde me levará esta minha liberdade. Não é arbitrária nem
libertina. Mas estou solta. Parece-me que pela primeira vez
estou sabendo das
coisas.A impressão é que só não vou mais até as
coisas para não me ultrapassar. Tenho certo medo de mim, não sou
de confiança, e desconfio do meu falso poder. Não dirijo nada.
Nem as minhas próprias palavras. Mas não é
triste: é humildade alegre.
Eu, que vivo de lado, sou a esquerda de quem entra. E estremece em mim
o mundo.”
Clarice

sexta-feira, 9 de julho de 2010

MIMOSA BOCA ERRANTE.

Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.

Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?

Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

Carlos Drummond de Andrade



segunda-feira, 5 de julho de 2010