
em golfadas envolve-me toda,
apagando as marcas individuais,
devora-me até que eu
não respire mais.
(Olga Savary)
..."E decidiu: vou viajar.
Porque não morri,
porque é verão,
porque é tarde demais
e eu quero ver, rever,
transver, milver tudo que não vi
e ainda mais do que já vi,
como um danado, quero ver feito Pessoa,
que também morreu sem encontrar.
Maldito e solitário, decidiu ousado:
vou viajar.
(excerto)
Caio Fernando Abreu
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá, onde a criança diz:
eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
que é a voz
De fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.
"Tenho tal medo da palavra dos homens.
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
(Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio
do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde")

“Vou te fazer uma confissão: estou um pouco assustada. É que não
Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.
Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?
Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.
Já sei a eternidade: é puro orgasmo.
Carlos Drummond de Andrade
Teus olhos entristecem
CLARICE LISPECTOR
No coração, talvez, ou diga antes: 
Ver-te é verter-me de mim
Derramar-te
Sobretudo
...que me dizem
Do que não aconteceu
Do interdito argumentado
Por
contratos e silêncios
Limites... nos quais não caibo
Regras...
que irei burlar
Não sei viver de amores tortos
De contrato
embolorado
E clausulas a serviço
Da repressão que eu mesmo
Sei
impor-me... mais que devo
Meus amores são plurais
Meu coração
vagabundo
O meu limite é o mundo
Que às vezes cabe em teus olhos
-
às vezes não -
E é então que percorro
Meu livro de
impedimentos
E não encontro sentença
Que me proiba lembranças
Brotadas
de meus arquivos
De emoções a granel
Mesmo entendendo que
hoje
Tornei-me meu próprio dono
Menestrel de meus desejos
Domador
de meus lampejos
E impulsivas ações...
Mais de amor do que de
morte
Mais de dor do que de sorte
Quero repartir contigo
O
doce da liberdade
Da liberdade vaidosa
De Pássaro
desengaiolado
Mas que ao final de seus voos
Retorna rápido ao
ninho...
Pra então aconchegar-se
Em nossa falicidade...
Em
nossa felicidade
Desinventamos a tempo
O tempo da
hipocrisia
Já que o reino em que vivemos
Prefere amor ao cinismo
E
respeito... a convenções
Jacques Prévert

